A nova leva de impostos vai pressionar a carga tributária do
País em 2016, mas a arrecadação final pode cair, avaliam especialistas,
frustrando planos de engordar os cofres públicos. Isso porque muitas empresas,
já sufocadas pela crise, acabam sem condições de produzir ou prestar serviços.
Como resultado, a chamada base tributável diminui, ou seja, menos pessoas e
empresas pagam imposto.
"O governo quer elevar a carga tributária, mas isso pode
ser um tiro no pé. Uma coisa é fazer isso com a economia a pleno vapor. Outra é
quando se está em franca decadência", avalia o economista Guilherme
Mercês, gerente de Ambiente de Negócios e Infraestrutura do Sistema Firjan.
"O que o governo pode colher no fim das contas é uma queda na arrecadação."
Tathiane Piscitelli, professora de Direito Tributário da FGV-SP,
também prevê que o "impostaço" pode ter um efeito reverso.
"Existe um limite de até onde você pode tirar do particular. Com o cenário
de desaceleração econômica, queda nas vendas e na renda, apertar ainda mais
pode ter o efeito contrário."
O consultor econômico Raul Velloso, especialista em contas
públicas, acredita que o aumento generalizado nos tributos é um "ato de
desespero". "Não há garantia nenhuma de que esse aumento de alíquota
vai trazer aumento na arrecadação", diz.
Já Ordélio Azevedo Sette, da Azevedo
Sette Advogados, diz que a carga tributária, hoje em torno de 34% do PIB, pode
estourar os 40% ao fim do ano. "Teremos um crescimento real da arrecadação
mesmo com a queda do PIB", diz. "O efeito é sempre o de agravar a
situação do contribuinte."
Em meio ao debate sobre o sucesso das
medidas, economistas veem a oportunidade de reformar o sistema tributário
brasileiro ir pelo ralo diante da paralisia no âmbito político. "Qualquer
reforma tributária no País demanda uma maturidade político-institucional que ainda
não temos", diz Felipe Renault, professor do Ibmec/RJ.
A unificação das alíquotas do ICMS e
a junção de tributos em um Imposto sobre Valor Agregado (IVA) seria um grande
passo, diz Renault. O modelo já é empregado em países da Europa e nos Estados
Unidos. O problema está na desconfiança dos governos em relação aos demais.
"Há um clima de tensão inegável
entre Estados, que claramente não confiam no governo federal para unificar os
impostos", diz. Por outro lado, os resultados do Simples Nacional dão
esperanças de que a reforma pode um dia sair do papel.
Outra alternativa seria tornar a
tributação mais igualitária entre os setores.
Hoje, a indústria de transformação
tem uma carga tributária superior a 45%, segundo cálculos da Firjan. Já a
agropecuária e a indústria extrativa são cobradas em menos de 6%, enquanto a
carga sobre os serviços é menor que 18%.
"Obviamente poderia ter
arrecadação maior com redistribuição da carga tributária. É uma boa hora para
rever essa base, que é de 50 anos atrás", diz Mercês."O governo quer
elevar a carga tributária, mas isso pode ser um tiro no pé." As
informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
Izabel Frazão
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